Fim da escala 6x1 e reforma tributária: por que 2027 pesa duas vezes na folha das empresas de serviços

Reportagem · Por Daniele Hickmann, contadora · Revisão técnica de Bruna Jamily, contadora, CRC PR-085665 · Fatos conferidos em 17 de outubro de 2026

O Senado aprovou o fim da escala 6x1 em 14 de outubro de 2026, por 75 votos a 1, e o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141 dois dias depois. Para as empresas de serviços, o impacto chega junto com a reforma tributária: em 2027, a hora de trabalho fica mais cara e a CBS começa a ser cobrada sem crédito sobre salários. São duas contas no mesmo orçamento.

Como a escala 6x1 acabou

A proposta, a PEC 221/2019, passou na Câmara em maio de 2026, em dois turnos; no segundo, foram 461 votos a 19. No Senado, o plenário votou na quarta-feira, 14 de outubro: 75 votos a favor e 1 contra. Emenda constitucional é promulgada pelas Mesas da Câmara e do Senado, sem sanção do presidente da República (art. 60, § 3º, da Constituição). A promulgação aconteceu na sexta-feira, 16 de outubro, com publicação no Diário Oficial no mesmo dia.

Na sessão de promulgação, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, resumiu a aposta do texto: "Quanto vale mais tempo para cuidar de si e de quem se ama?" (Agência Brasil, 16/10/2026).

O que a emenda muda e quando

  • Dezembro de 2026, 2 meses depois da publicação: jornada de até 42 horas por semana e 2 dias de repouso remunerado, um deles preferencialmente no domingo.

  • Dezembro de 2027: jornada de até 40 horas por semana e 8 horas por dia.

  • Em nenhuma etapa o salário pode ser reduzido, nem o piso da categoria.

  • Quem tem diploma e ganha a partir de R$ 21.188,88 por mês em 2026 (2,5 vezes o teto do INSS) fica fora das regras de duração e de controle de jornada, salvo decisão do empregador ou convenção coletiva, e mantém os 2 dias de repouso.

O passo a passo para a empresa, com as exceções e o calendário, está no artigo Fim da escala 6x1: o que muda para as empresas e quando começa a valer.

Quanto custa: o que dizem o Ipea e as entidades

Os números que circulam divergem porque medem coisas diferentes. O mais detalhado por setor é a Nota Técnica 123 do Ipea, de fevereiro de 2026, feita com os vínculos com carteira assinada de 2023: com 40 horas e o mesmo salário, o custo médio do trabalho com carteira assinada sobe 7,84%. Em 2023, 79,7% dos trabalhadores com carteira tinham jornada acima de 40 horas.

O efeito no custo total depende do peso da folha em cada setor. Nas contas do Ipea para a jornada de 40 horas, alguns dos setores de serviços ficam assim:

  • Tecnologia da informação: hora 3,41% mais cara e custo total 1,37% maior.

  • Atividades jurídicas, de contabilidade e de auditoria: hora 7,29% mais cara e custo total 3,38% maior.

  • Publicidade e pesquisa de mercado: hora 7,47% mais cara e custo total 3,46% maior.

  • Arquitetura e engenharia: hora 8,15% mais cara e custo total 3,78% maior.

  • Serviços de escritório e de apoio administrativo: hora 6,73% mais cara e custo total 4,08% maior.

  • Vigilância e segurança, o primeiro da lista do Ipea dos setores com maior aumento no custo total: hora 8,50% mais cara e custo total 6,65% maior.

Gráfico de barras com o aumento do custo total por setor estimado pelo Ipea para a jornada de 40 horas: tecnologia da informação 1,37%; jurídico, contabilidade e auditoria 3,38%; publicidade e pesquisa de mercado 3,46%; arquitetura e engenharia 3,78%

Ipea, Nota Técnica 123 (Disoc), fevereiro de 2026, Tabelas 4 e 5: aumento do total de gastos com a jornada de 40 horas e o salário mantido, com dados de 2023.

Do lado das entidades, a Confederação Nacional da Indústria pediu ao Congresso que volte ao tema e estimou custo adicional de até R$ 267 bilhões, queda de 0,7% do PIB e inflação média de 6,2%. A Confederação Nacional do Comércio criticou a votação em período eleitoral e defende análise técnica dos efeitos sobre comércio, serviços e turismo. As centrais sindicais comemoraram a aprovação (Agência Brasil, 15/10/2026).

Para cada empresa, a conta que importa é a dela. Uma consultoria que já trabalha 40 horas de segunda a sexta quase não sente a mudança na jornada. Uma empresa de atendimento com equipe de 44 horas e sábado sente nas duas pontas: na escala e no custo.

Por que 2027 pesa duas vezes nas empresas de serviços

Em empresa de serviços, a folha costuma ser o maior custo. Em 2027, duas mudanças batem nela ao mesmo tempo, e uma terceira nas empresas de tecnologia:

  1. A hora mais cara. Com o mesmo salário e menos horas, a hora normal sobe 4,8% na etapa de 42 horas e 10% na de 40 horas. Quem precisar manter a operação vai pagar hora extra ou contratar.

  2. A CBS sem crédito sobre a folha. A partir de 1º de janeiro de 2027, a CBS substitui o PIS e a Cofins e dá crédito amplo sobre as compras. Salários e pró-labore, porém, não têm IBS nem CBS e, por isso, não geram crédito. Quanto maior o peso da folha no custo, menor a parte do custo que vira crédito.

  3. A desoneração da folha encolhe. Para as empresas de tecnologia que optaram pela desoneração, o INSS sobre a folha sobe de 10% em 2026 para 15% em 2027, e a contribuição sobre a receita cai de 2,7% para 1,8%.

Três quadros sobre 2027 na folha das empresas de serviços: jornada de 42 horas em dezembro de 2026 e 40 horas em dezembro de 2027, com a hora 4,8% e 10% mais cara; CBS a partir de 1º de janeiro de 2027, sem crédito sobre salários e pró-labore; desone

EC 141/2026; LC 214/2025, arts. 6º e 47; Lei 12.546/2011, art. 9º-A. Conferido em 17/10/2026.

Na prática, o orçamento de 2027 de uma agência ou de uma consultoria precisa de duas simulações juntas: a da CBS sobre o preço e a da folha com a nova jornada. Uma sem a outra deixa a margem de 2027 sem conta. O peso da folha na reforma já foi tema do artigo sobre agências e consultorias.

O que ainda falta definir

  • A lei complementar que pode criar medidas de transição para MEI, microempresas e empresas de pequeno porte, condicionadas à manutenção dos empregos (art. 5º da emenda). Em 17 de outubro, ela não existia.

  • A lei que pode prever regimes diferenciados de jornada, respeitados os novos limites (art. 7º, § 3º, da Constituição).

  • As convenções coletivas de cada categoria, que perdem as cláusulas incompatíveis em dezembro.

  • Os aditivos dos contratos com o poder público que envolvem mão de obra, em até 1 ano.

  • A alíquota da CBS de 2027: o TCU entrega o cálculo até 30 de outubro e o Senado fixa até 15 de dezembro.

E a eleição?

Com o segundo turno das eleições, a pergunta é natural: a emenda pode ser revista? Ela já está na Constituição. Mudar o texto exige outra emenda, aprovada por três quintos dos votos, em dois turnos, na Câmara e no Senado. Até lá, as datas de dezembro valem. É o mesmo raciocínio da reportagem sobre o calendário da reforma tributária.

O que fazer na empresa até dezembro

  • Mapear a jornada de cada pessoa e quantas trabalham mais de 40 horas.

  • Ler a convenção coletiva da categoria antes de mexer na escala.

  • Desenhar a escala de dezembro com 2 dias de repouso.

  • Fazer o orçamento de 2027 com as duas contas: a folha com a nova jornada e a CBS sobre o preço.

  • Rever os contratos com clientes que dependem de horas, com cláusula de revisão de preço.

Para o sócio de uma empresa de serviços, a pergunta desta semana não é se a regra vale, é quanto ela custa: quanto a folha sobe, quanto a CBS pesa e o que dá para repassar ao cliente. As três perguntas têm resposta com os números da própria empresa.

Empresa de software, agência ou consultoria tem assuntos próprios na reforma e na folha. Veja a contabilidade para empresas de tecnologia e serviços da Branê.

Perguntas frequentes

Quando o fim da escala 6x1 foi aprovado?

No Senado, em 14 de outubro de 2026, por 75 votos a 1; na Câmara, em maio de 2026. A Emenda Constitucional 141 foi promulgada e publicada em 16 de outubro de 2026.

Qual o impacto do fim da escala 6x1 nas empresas?

Com o mesmo salário, a hora fica 4,8% mais cara com 42 horas e 10% mais cara com 40 horas. O Ipea estima alta de 7,84% no custo médio do trabalho com carteira assinada; no custo total, o efeito vai de 1,37% em tecnologia da informação a 6,65% em vigilância e segurança.

O fim da 6x1 vale para pequenas empresas?

Sim, as datas valem para todas as empresas. A emenda permite que uma lei complementar crie medidas de transição para MEI, microempresas e empresas de pequeno porte, mas essa lei não existia em 17 de outubro de 2026.

A folha de pagamento gera crédito de CBS em 2027?

Não. Salários e pró-labore não têm IBS nem CBS e, por isso, não geram crédito. O crédito vem das compras de bens e serviços com o imposto destacado na nota fiscal.

O fim da escala 6x1 pode ser revertido?

Para mudar o texto, só com nova emenda constitucional, aprovada por três quintos dos votos em dois turnos, na Câmara e no Senado. Enquanto o texto não mudar, as datas de dezembro valem.

Fontes consultadas

Reportagem informativa, com fatos conferidos em 17 de outubro de 2026. As estimativas de custo são das instituições citadas. Não substitui a análise do caso da sua empresa. Responsável técnica: Bruna Jamily, contadora, CRC PR-085665.

Próximo
Próximo

BPO financeiro: quanto custa e quando vale a pena terceirizar o financeiro